quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Para começo de conversa...

Como uma primeira postagem, deixo o poema de Drummond, que da nome ao blog (apesar do poema estar no singular, e o blog no plural). Mais tarde volto para minhas considerações profundas sobre o texto. (risos)

TARDE DE MAIO
Carlos Drummond de Andrade

Como esses primitivos que carregam por toda parte
o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo,
tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,
outra chama, não perceptível, tão mais devastadora,
surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas,
no solo ardente, porções de minh’alma
nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza sem fruto.

Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva, colheita, fim do inimigo,
não sei que portentos.
Eu nada te peço a ti, tarde de maio, senão que continues,
no tempo e fora dele, irreversível, sinal de derrota que se vai consumindo
a ponto de converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém que,
precisamente, volve o rosto e passa...

Outono é a estação em que ocorrem tais crises, e em maio,
tantas vezes, morremos.
Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,
já então espectrais sob o aveludado da casca,
trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres
com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro fúnebre,
tarde de maio, em que desaparecemos, sem que ninguém,
o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer:
se era um préstito lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.
Nem houve testemunha.
Nunca há testemunhas.
Há desatentos. Curiosos, muitos.
Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara?
Se morro de amor, todos o ignoram e negam.
O próprio amor se desconhece e maltrata.
O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;
não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória das impurezas de barro
e folha em que repousava.
E resta, perdida no ar, por que melhor se conserve,
uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.


Esse poema tem uma beleza singular, sem dúvida, um dos poemas mais bonitos e sinestésicos. Leia e releia, a cada nova leitura, uma nova sensação
E tenho dito!

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